18.05.2008
Das forças da natureza, nenhuma é tão poderosa quanto
os vulcões. No Chile, um deles estava adormecido havia tanto tempo
que os moradores achavam que ele era uma simples montanha. Os repórteres
Vinicius Dônola e Alberto Fernandez viram, de perto, a força
Depois de um sono profundo que durou milênios, um gigante despertou, cuspindo cinzas a 12 mil metros de altura. O céu e a terra se uniram por uma coluna de cinzas e monstruosas descargas elétricas, decorrentes da intensa atividade vulcânica.
O Chaitén era dado como morto e ninguém foi capaz de prever a súbita ira do vulcão andino, nem o próprio governo do Chile.
Nunca se pensou que Chaitén, a cidade que nasceu vizinha ao vulcão, pudesse ser um lugar perigoso, confessa ao Fantástico a ministra chilena da Habitação e Urbanismo, Patrícia Poblete.
“Há sete mil anos que não se tem uma erupção neste vulcão”, diz a ministra.
Os moradores foram retirados às pressas, antes que fossem engolidos pela nuvem de cinzas.
“Deixamos o gato, o cachorro... Não sei se estão vivos ou mortos”, diz uma moradora.
“Só tenho este sapato e a roupa do corpo”, diz o morador que nasceu em Chaitén. O resto? “Perdi tudo, tudo, tudo".
É a história que outras sete mil pessoas têm para contar. As pessoas que moravam perto do vulcão estão hoje vivendo em cidades da redondeza, como em Puerto Montt, que fica em um lugar mais seguro, a cerca de 200 quilômetros de Chaitén.
Um colégio público foi transformado em abrigo para 90 pessoas, entre elas, 30 crianças. No dia em que chegamos ao abrigo, a TV não trazia boas notícias. As cinzas do vulcão represaram o rio que cortava a cidade.
Chaitén, que antes temia ser soterrada por um mar de lava, foi então castigada pela força das águas. Até o início do mês, o lugarejo era conhecido como uma tranqüila estância de águas termais, no alto da cordilheira dos Andes, salpicada de montanhas de fogo.
A maioria dos vulcões se localiza nas bordas das placas tectônicas. O vulcão Chaitén fica no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma parte da Terra que concentra dois terços dos vulcões. Neste círculo, a placa que está abaixo do oceano mergulha sob a placa continental.
Lá embaixo, parte dela é absorvida pelo manto plástico, uma camada geológica muito quente e transformada em magma.
Magma é a rocha líquida das profundezas da Terra. Ao entrar em contato com a superfície, o magma vira lava.
No caso do Chaitén, por enquanto, o que se vê não é lava, mas uma nuvem de sedimentos que se espalha pela América do Sul. Vôos foram cancelados no Uruguai. Buenos Aires foi encoberta por uma manta de cinzas e outra vasta extensão do território argentino sofre os efeitos da erupção.
Para chegar até lá, não há vôos regionais, também cancelados. Tivemos então que rodar 1.400 quilômetros, cruzando áreas desertas e cobertas pela neve. Nosso destino: a cidade de Esquel. Ali as cinzas cobriram até o topo das montanhas. É a região da Argentina que está sendo mais atingida pelas cinzas do vulcão.
Nós estamos no sul do país, a cerca de 1.800 quilômetros de Buenos Aires, perto da fronteira com o Chile. Hoje está chovendo aqui e chovendo cinza vulcânica.
São gotas d’água misturadas a uma poeira fina, que agora está sendo lançada pelo vulcão.
As cinzas se acumulam pelas ruas e calçadas aqui da cidade. É como se fosse uma areia, bem fininha, cinza.
As pessoas estão assustadas. “São partículas tão fininhas que, ao respirá-las, vão direto para os pulmões”, diz uma moradora argentina.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira, o gigante mostra ao mundo que
está vivo, espalhando medo ao sabor do vento.
fonte:fantastico.globo.com