18.05.2008
A passagem de um ciclone por Mianmar e os tornados que varreram regiões
dos Estados Unidos podem ser apenas um anúncio de catástrofes
ainda maiores nas próximas décadas, como conta o repórter
Rodrigo Alvarez.
Quando o inferno chegou, em uma tarde de sexta-feira, não foi nenhuma surpresa para os meteorologistas. Dias antes, eles emitiram o alerta. Mas a ditadura no comando de um dos países mais pobres do planeta escondeu o perigo e a população de Mianmar não teve a menor chance.
O ciclone Nargis se formou no Oceano Índico, resultado do choque entre ventos frios e o vapor que surge do mar aquecido. Em seis dias, chegou enfurecido ao continente asiático. Foram ventos de mais de 200 km/h. Pelos números oficiais, já são 78 mil mortos, 2,5 milhões de desabrigados.
“O que nós podemos dizer é que este tipo de ciclone, de extrema intensidade - como também o foi o furacão Katrina - vão acontecer com muito mais freqüência quando o planeta for ficando cada vez mais quente”, afirma Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Um dia antes do inferno de Mianmar, um ciclone bem menos poderoso atingiu o sul do Brasil. Deixou dois mortos e cem mil desabrigados. Ciclones são comuns no Oceano Atlântico, mas raros no continente.
Furacões também quase nunca aparecem no Hemisfério Sul: o único em solo brasileiro foi o Catarina, em março de 2004. Nos Estados Unidos, ventos impiedosos têm sido cada vez mais freqüentes.
Este mês, um ciclone deixou 23 mortos. Mais de 800 tornados atingiram quatro estados americanos, desde o começo do ano, 50% mais do que a média pra este período.
E o país que até hoje cura as feridas do furacão Katrina sofre também com um aumento no número de enchentes e incêndios. Coincidência? O dia em que encontramos o doutor Norman Miller foi o mais quente, no mês de maio, em 150 anos de medições na Califórnia.
"Estamos vendo uma atividade de furacões e ciclones sem precedentes nos últimos dois anos", diz o especialista em clima da universidade de Berkeley. “Vivemos um momento de transição e tudo indica que uma natureza ainda mais severa nos aguarda no horizonte", aponta Normam Miller.
Será que estamos diante uma revolta da natureza contra os seres humanos? Quanto do que está acontecendo é conseqüência do que nós fizemos com o planeta? A ciência é cada vez mais contundente ao relacionar as catástrofes naturais com a ação do homem. O aquecimento da terra, do mar e da atmosfera é só a ponta do problema que nós ajudamos a construir.
Dois estudos divulgados na edição desta semana da revista Nature, uma das mais respeitadas no meio científico, mostra que sem o homem a revolta da natureza até existiria, mas seria muito menor. Um dos estudos comparou a atmosfera de hoje com as bolhas de ar presas em camadas profundas de gelo na Antártida. E revelou: hoje o nível de gás carbônico, o principal gás do efeito estufa, é o maior dos últimos 800 mil anos.
O outro estudo, feito por cientistas de dez países, confirma as suspeitas dos ambientalistas, o aquecimento global está provocando mudanças físicas e biológicas no planeta. Alterando, por exemplo, as fases de crescimento de alguns animais, as épocas de floração de plantas e migração de pássaros.
E na mesma semana, um observatório no Havaí registrou esta semana um novo recorde de concentração desse gás poluente no ar do planeta. “É uma mostra que a sociedade global não está conseguindo parar de queimar petróleo, carvão, gás natural, florestas e tudo que gera gás carbônico na atmosfera”, afirma Carlos Nobre.
O último verão no Oceano Ártico foi silenciosamente devastador. A temperatura subiu. O gelo derreteu mais e muito mais depressa do que antes. Durante milênios, as geleiras encolhiam no verão e voltavam ao normal com a aproximação do inverno. Mas agora, quem depende das geleiras para caçar está morrendo de fome.
O urso polar pode desaparecer em apenas 40 anos. É o primeiro da lista dos animais que o governo americano considera ameaçados pelo aquecimento global.
O pesquisador Norman Miller imagina que a Terra deve estar encarando a espécie humana como uma doença e, por isso, tenta reagir para criar um novo equilíbrio.
“Temos que parar de poluir o quanto antes para não chegar a um ponto em que não existirá retorno. Caso contrário", diz o pesquisador americano, "Nossos filhos e netos viverão em um inferno, o inferno que nós estamos criando para eles".
fonte: fantastico.globo.com